NEGRITUDE FUTEBOL CLUBE

O NEGRITUDE, UM
HINO DEDICADO À ALEGRIA.

"Tô chegando na Cohab/ Pra curtir minha galera/ Dar um abraço nos amigos e um beijinho em minha Cinderela". Foi com esse animado pagode que o grupo Negritude Júnior imortalizou as moradias populares e cantou a alegria e as dificuldades de viver na periferia.

No entanto, além do amor ao samba, os colegas tinham outra coisa em comum: torciam para o mesmo time de futebol, o Negritude Futebol Clube, que acabou inspirando o nome do grupo. "A avó do percussionista Claudinho era minha vizinha na Cohab 1, Padre José de
Anchieta, em Artur Alvin. Na época em que o conjunto estava se formando, por volta de 1985, o nosso time estava em ascensão, por causa do sucesso no Desafio ao Galo. Então, ele deu ao grupo o mesmo nome do time", diz José Roberto de Andrade , fundador e presidente do Negritude F.C.

Futebol, pagode, cerveja, dedicação e muito trabalho são ingredientes que fazem parte da história deste conceituado time da várzea paulistana.

PRETO, BRANCO E CINZA.
O NEGRITUDE E SUAS CORES.

No início dos anos 80, cinco jovens, na faixa dos 18 e 19 anos, acabavam de se mudar para o Conjunto Habitacional Padre José de Anchieta, mais conhecido como Cohab I de Artur Alvin, que começava a ser ocupado.

José Roberto , Douglas , Aguinaldo, Osvaldo e Álvaro passaram a ser vizinhos e a amizade entre eles foi imediata. "Freqüentávamos juntos os bailes blacks, saíamos para paquerar e para jogar bola. E, foi numa dessas peladas com outros novos moradores da Cohab
que decidimos montar um time de futebol", explica Zé Roberto. "Demos a ele o nome de Negritude Futebol Clube, já que todos somos negros, e as cores preto, branco e cinza para os uniformes e bandeiras".

O nascente time realizou inúmeros jogos nas quadras de Itaquera e até no interior do Estado, trazendo sempre na bagagem um novo torcedor. Com um número cada vez maior de simpatizantes, o clube sentiu a necessidade de uma administração, o que ocorreu com a posse do Sr. Ivan Aparecido da Silva, pai do Douglas, que se tornou o primeiro presidente da história do clube.

"A partir de então, o time obteve uma enorme ascensão, chegando a ser uma das equipes mais conhecidas da várzea de São Paulo", diz Zé Roberto. "Lançamos nas nossas camisas, o símbolo de um homem negro com cabelo black power e frases como: príncipe negro, diamante negro e raça negra. Este último, inspirou o nome de um outro grupo de pagode", orgulha-se.

Porém, em 1983, o clube ainda não havia conseguido seu registro na Secretaria Municipal de Esportes (SEME), nem na Federação Paulista de Futebol (FPF), o que o fez perder inúmeras oportunidades. "A gente queria participar de campeonatos, mas sem registro não era possível. Não
conseguíamos legalizar o clube, pois a Federação Paulista de Futebol não aceitava o nome Negritude, alegando que este poderia gerar conflitos raciais. Tivemos então que registrá-lo como Alvinegro Futebol Clube".

Só no ano de 1986 que o clube conseguiu se regularizar com o nome de Negritude F.C e passou a disputar os mais importantes torneios e campeonatos varzeanos, inclusive o famoso Desafio ao Galo. "Foi depois da nossa brilhante apresentação no Galo que o time passou a ser mais conhecido e respeitado", alegra-se o presidente.

Realmente o Negritude mostrou um belíssimo futebol neste torneio, que era exibido nas manhãs de domingos pela Tv Record, direto do Estádio do CMTC Clube, na Zona Norte da capital. Algumas partidas ficaram
marcadas, como a vitória por 3 a 1 em cima do União dos Servidores, os 2 a 1 sobre o Cruzeiro de Guaíra e os 2 a 0 contra o Grêmio Esportivo Praia Grande. Porém, a derrota por 3 a 2 para o Metalonita tirou o time do Desafio ao Galo, mas garantiu-lhe o 3º lugar na competição, com cinco vitórias.

"Considero o jogo contra o Cruzeiro, no Galo, o momento de maior emoção que tive no Negritude, pois ao final da partida, levantamos a arquibancada, que passou a cantar e bater palmas para nós", relembra. O Negritude participou de todas as edições da Copa da Cidade, sendo seu resultado mais expressivo um honroso 7º lugar na 3ª edição da Copa Kaiser.

O clube sagrou-se ainda: campeão da 1º Copa Cohab de 1980; campeão da Copa Vila Formosa, em 1983; vice-campeão da Copa Black Power de 1989; campeão do Torneio de Veteranos, promovido pelo Paulistano do Jardim Coimbra, em 1990 e campeão invicto da Copa Leões, em 1997, vencendo na final o Paulistano do Parque Continental por 2 a 1.

Hoje, mais de vinte anos após a sua fundação, o Negritude continua dando alegria a sua torcida e mantém-se firme nas suas atividades esportivas. "Possuímos quatro equipes: paradões (acima de 40 anos), veteranos (acima de 30 anos), esporte B (juvenil, com garotos na faixa dos 18 anos) e esporte A, que nos representa nas competições oficiais", diz.

Muitas pessoas que viram o time nascer ainda o prestigiam e alguns ainda trabalham a seu favor, somente pelo prazer e amor a camisa,

sem visar nenhum tipo de recompensa. "Daqueles garotos que fundaram o clube restou apenas eu, o Douglas e o Marrom (Álvaro), pois o Aguinaldo e o Osvaldo, depois que se casaram, saíram da Cohab e acabaram perdendo o contato com o time", fala o fiel morador do conjunto habitacional.

"Não podemos esquecer de pessoas que foram, e são, importantes na história do Negritude. São elas: Sr. Ivan , o 1º presidente, e hoje técnico do veteranos; Jadir, diretor de esportes; Feijó, tesoureiro; Testa, massagista; Tiãozinho, que cuida de toda parte burocrática;
Luiz Carlos, presidente do veteranos; Jorge, secretário; Emerson, técnico do Esporte B, além do Félix e da Cristina que são fiéis torcedores", homenageia Zé Roberto que agrega as funções de presidente e técnico da equipe principal do Negritude.

PATRIMÔNIO
É A NOVA META.

O clube, que pertence ao CDM Alvorada, tem horários fixos para a utilização do campo de futebol e conta com o patrocínio de alguns comerciantes da região, Panificadora Zas-trás, Travesso Vídeo e Fast Placas, que o ajudam com a condução e fardamento dos seus jogadores. "Além do apoio dos patrocinadores, realizamos torneios, bailes e festas para arrecadar verbas para o clube".

Famosos craques do futebol profissional, em algum momento das suas carreiras, vestiram a camisa deste estimado clube. Dodô do Santos; Edílson, ex-goleiro do Corinthians e hoje atuando nos Eua; Zé Ricardo, que jogou no São Caetano e agora está na Bélgica; Juninho, que defende um time italiano de futebol de salão; Clebinho, que joga nas quadras espanholas; Émerson, do time B do Palmeiras; Waguinho, que também está na Bélgica e Esquerdinha que brilha no futebol japonês, são alguns exemplos.

O presidente, que já cumpre seu terceiro mandato, tem como principal projeto para o futuro a construção de uma sede social. "É muito burocrático fazer uma sede num CDM que também é utilizado por outros clubes. Queremos construir, mas ter o direito de administrar", enfatiza. Durante três anos, o Negritude teve uma sede, que foi ajeitada na sala a que tinha direito no Céu (Centro Educacional da Cohab I), desativado em 1988. Lá, realizavam reuniões e praticavam esportes, pois o centro ainda possuía algumas quadras.

"O Negritude é como um filho para mim, que eu vi nascer e estou vendo crescer. Já passei aqui por muitas dificuldades, alegrias, emoções e decepções, mas o meu amor a este time supera tudo isso", finaliza Zé Roberto.